"Façam cair o governo"

>> dezembro 09, 2009


Mark Felt foi um daqueles príncipes que o sólido ensino superior norte-americano produz com saudável regularidade. Tinha uma licenciatura em Direito de Georgetown e chegou a ser uma alta patente da marinha dos Estados Unidos. Com este formidável equipamento académico desempenhou missões complexas no Pentágono e na CIA.




Durante a guerra do Vietname serviu no Conselho Nacional de Segurança de Henry Kissinger. Acabou como Director Adjunto do equivalente americano à nossa Polícia Judiciária. Durante vários anos foi Director Geral interino do FBI. Foi nesse período que Mark Felt se tornou no Garganta Funda. Muito se tem escrito sobre as motivações de um alto funcionário do aparelho judiciário americano na quebra do segredo de justiça no Watergate. Todo o curriculum de Felt impunha-lhe, instintivamente, a orientação clássica de manter reserva total sobre assuntos do Estado. Hoje é consensual que Mark Felt só pode ter denunciado a traição presidencial de Nixon por uma razão. Para ele, militar e jurista, acabar com o saque da democracia americana era uma questão de honra. Pôr fim a uma presidência corrupta e totalitária era um imperativo constitucional. Felt começou a orientar em segredo os repórteres do Washington Post quando constatou que todo o aparelho de estado americano tinha sido capturado na teia tecida pela Casa Branca de Nixon e que, com as provas a serem destruídas, os assaltos ao multipartidarismo ficariam impunes. A única saída era delegar poder na opinião pública para forçar os vários ramos executivos a cumprir as suas obrigações constitucionais. Estamos a viver em Portugal momentos equiparáveis. Em tudo. Se os mecanismos judiciais ficarem entregues a si próprios, entre pulsões absurdamente garantisticas, infinitas possibilidades dilatórias que se acomodam nos seus meandros e as patéticas lutas de galos, os elementos de prova desaparecem ou são esquecidos. Os delitos ficam impunes e uma classe de prevaricadores calculistas perpetua-se no poder. Face a isto, há quem no sistema judicial esteja consciente destas falhas do Estado e, por uma questão de honra e dever, esteja a fazer chegar à opinião pública elementos concretos e sólidos sobre aquilo que, até aqui, só se sussurrava em surdinas cúmplices. E assim sabe-se o que dizem as escutas e o que dizem as gravações feitas com câmaras ocultas que registam pedidos de subornos colossais. Ficámos a conhecer as estratégias para amordaçar liberdades de informação com dinheiro do Estado. E sabemos tudo isto porque, felizmente, há gente de honra que o dá a conhecer. Por isso, eu confio no Procurador que mandou investigar as conversas de Vara com quem quer que fosse. Fê-lo porque achou que nelas haveria matéria de importância nacional. E há. Confio no Juiz que autorizou as escutas quando detectou indícios de que entre os contactos de Vara havia faces até aqui ocultas com comportamentos intoleráveis. E, infelizmente o digo, confio, sobretudo, em quem com toda a dignidade democrática e grande risco pessoal, tem tomado a difícil decisão de trazer ao conhecimento público indícios de infâmias que, de outro modo, ficariam impunes. A luta que empreenderam, pela rectificação de um sistema que a corrupção e o medo incapacitaram, é muito perigosa. Desejo-lhes boa sorte. Nesta fase, travam a batalha fundamental para a sobrevivência da democracia em Portugal. Têm que continuar a lutar. Até que a oposição cumpra o seu dever e faça cair este governo.


Mário Crespo

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Fracasso da democracia

>> dezembro 04, 2009


Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram (Olá! camarada Sócrates…Olá! Armando Vara…), que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido.




Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de RENDA ECONÓMICA - mas não de construção económica - aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a "prostituir-se" (Olá! Batista Bastos… ainda és comunista?!) na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos.



Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai continuar burro o grande cavallia (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades.



Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos.



A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.



Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.



Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.



Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.



Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.



E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.



Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?



Vale e Azevedo pagou por todos?



Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?



Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?



Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?



Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?



Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?



Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.



No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?



As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.



E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?



E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu?



Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.



E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?



E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?



O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.



E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?



E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.



Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.



Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.



Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.



Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.





Este é o maior fracasso da democracia portuguesa



Clara Ferreira Alves - "Expresso"


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O chefe religioso, o analista e o artista

>> novembro 12, 2009

O chefe religioso, como o analista, desperta nos homens a consciência do Id, o grande reservatório desconhecido e fundamento da humanidade. Ao tornar os homens conscientes desta identidade do seu substracto, desta fraternidade da cintura para baixo, desta humanidade à espreita, por assim dizer, ele põe em movimento uma força da oposição, a divindade. Se traçarmos um esquema psicológico da alma humana, teremos algo semelhante a um iceberg, com um terço visível e dois terços invisíveis, abaixo da superfície do mar, abaixo do limiar da consciência. O que distingue os grandes dos pequenos icebergs é a elevação e a profundidade – a medida de uma é a medida de outra. A mesma força que impele um iceberg até ao mais alto também mergulha mais fundo do que os outros. O isolamento é o índice da profundidade. De que serve, então os analistas insistirem na adaptação à realidade? Que realidade? Realidade de quem? A realidade do iceberg. Primeiro ou dos icebergs X, Y e Z? Todos nadamos nos fundos do oceano e voamos na estratosfera. Alguns mergulham um pouco mais profundamente, alguns sobem um pouco mais alto – mas é sempre ar e água, sempre realidade, mesmo que se trate de uma realidade completamente louca. O analista acentua a realidade mais profunda, o líder religioso, a realidade espiritual estratosférica. Nenhum deles tem inteira razão. Ambos distorcem a imagem da realidade, na demanda apaixonada da verdade. O artista não está interessado na verdade ou na beleza em si. O artista abala essas imagens, porque é perfeitamente desinteressado. A sua visão contorna os obstáculos, recusando esgotar-se em ataques frontais. A sua obra é simplesmente a expressão de uma luta que visa a adaptação a uma realidade por ele próprio criada, e contém em si todas as restantes abordagens da realidade, conferindo-lhes sentido.

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Vencer o medo da morte

>> novembro 06, 2009

A experiência por si só não tem valor, como a ideia por si só não tem valor. Para dar validade a qualquer delas, teremos que as utilizar em sinultâneo e plasticamente. Em suma, nunca nos curaremos das nossas doenças (físicas e mentais), nunca alcançaremos um paraíso (quer real quer imaginário) e nunca eliminaremos os nossos instintos maléficos e adversos (sejam eles quais forem). No campo das ideias, o melhor que alguma vez conseguiremos será uma filosofia da vida (e não uma ciência da vida, o que seria uma contradição nos termos); no campo da experiência, nunca lograremos melhor expressão do que a afirmação da nossa natureza animal (e não dos nossos modelos culturais). O objectivo mais alto do homem, enquanto pensador, é alcançar um modelo, uma síntese, capaz de captar poeticamente a vida; o objectivo mais alto e mais essencial do homem, enquanto animal, é dar plena expressão aos seus instintos, obedecer aos seus instintos, levem-nos estes para onde os levarem. Enquanto não puder agir como um selvagem ou menos do que um selvagem e pensar como um deus ou melhor do que um deus, o homem sofrerá, oferecer-se-á a si próprio remédios, governos, religiões, terapias. Por trás de todo o seu comportamento está o medo – o medo da morte. Pudesse ele vencer esse medo, e viveria como um deus e um animal. O medo da morte engendrou toda uma cosmogonia de medos menores que nos empestam de mil maneiras diferentes. Estamos definitivamente dominados pelos pequenos medos, como sabemos. Quanto maior a personalidade, maior a simplificação, maior o diapasão, a tensão, a polaridade, o sumo, a vitalidade. Podemos tornear o medo, isolá-lo e contrapor-lhe uma grandiosa sinfonia de vida, ou podemos recusar-nos a reconhecê-lo, travar um milhão de batalhas triviais todos os dias e ter como resultado essa mixórdia insípida que faz para a maioria dos homens as vezes do verdadeiro alimento.

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Reintegremo-nos!

>> novembro 02, 2009

«Os grandes pioneiros, exploradores como o Pai Freud, Jung o Místico, e outros que tais, o que buscam não é criar uma técnica de psicanálise, nem mesmo uma teoria filosófico-científica. Nada disso. O que fazem é oferecerem-se-nos como exemplos das potencialidades que existem em todos e cada um de nós. Procuram suprimir-se a si próprios enquanto médicos, cientistas, filósofos, teóricos, esforçando-se por nos revelarem a natureza miraculosa do homem, as grandes possibilidades que se abrem à sua frente. Não querem discípulos nem divulgadores, não querem ser imitados – querem apenas indicar o caminho. O que penso é que deveríamos virar costas às suas teorias, devíamos esmagá-las. Devíamos tornar todas essas teorias desnecessárias. Que cada um oriente o olhar para dentro e se veja com temor e espanto, com mistério e respeito; que cada um exerça a sua própria influência, o seu poder devastador, os seus próprios milagres. Que cada um, enquanto indivíduo, assuma o papel do artista, do curandeiro, do profeta, do sacerdote, do rei, do guerreiro, do santo. Que acabe a divisão de trabalho. Tornemos a reunir os elementos dispersos da nossa individualidade. Reintegremo-nos.»

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